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A luta do cubano

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Esse rosto e esse punho são o retrato da nossa passagem por Havana.

O povo cubano é batalhador. Há pouco mais de um século, após 400 anos sob domínio espanhol, lutou e alcançou a independência tardia à custa de muito sangue. Independente, continuou lutando para se livrar da forte influência norte-americana. Apenas em 1959, através da famosa revolução encabeçada por Fidel Castro, Camilo Cienfuegos e Che Guevara, libertou-se plenamente. E ainda luta contra a pobreza e a escassez, consequências, em parte, de um embargo econômico insensato que sofre há 50 anos.

Mas não é só isso que o punho cerrado e o olhar desconfiado desse homem representam. Nas ruas de Havana os cubanos também travam uma batalha diária contra os turistas.
Isso mesmo, contra os turistas. Explico.

Nos idos de 1960, sem poder comercializar com os EUA e os aliados capitalistas, Cuba uniu forças à União Soviética. Por longos anos a economia cubana apoiou-se no gigante socialista. Em 1991, porém, com a queda da potência oriental, Cuba entrou em crise. Uma das soluções que a ilha caribenha encontrou para tentar se levantar foi abrir as portas ao turismo.
Para o exigente mercado Cuba ofereceu ótimos hotéis, restaurantes e serviços. Coisa chique, muito além do que o cubano comum poderia pagar. Aliás, para o turista até hoje não há muita opção: cada dia em Cuba custa centenas e centenas de pesos, mais que o salário mensal de um trabalhador cubano. Por isso o governo estabeleceu a circulação de duas moedas no país: uma para os turistas, e uma para os cubanos. E é aí que o problema começou.
O peso convertível (CUC), utilizado para o turismo, vale 24 vezes mais (sim, 24 vezes mais) que a moeda nacional (CUP), utilizada pelos cubanos. Isso significa que o trabalhador que recebe direto do turista ganha 24 vezes mais que o trabalhador comum. Esse fato gera dois grandes problemas.
Primeiro: o sistema socialista é abalado em uma de suas premissas fundamentais. Classes econômicas começam a ser criadas, pois alguns ganham muito mais dinheiro que outros.
Segundo: muitos cubanos, formal ou informalmente, querem tirar sua casquinha do mercado turístico. E quem não faria isso, não é mesmo? Por que se satisfazer com as unidades de ovos que o governo lhe dá semanalmente, se há a possibilidade de comprar uma refeição diferente, um carro novo, ou até mesmo uma passagem para o exterior (coisa proibida até pouco tempo, e ainda quase impossível para o cubano comum)? Assim começa o ataque.
Andando por Havana fomos abordados o tempo todo. Tanto por homens quanto por mulheres, senhoras e crianças. Com raríssimas exceções, o motivo era sempre o mesmo: tentar conseguir alguns CUCs. Desde golpes elaborados, ofertas dos mais diversos serviços e produtos, até pedidos diretos (“me dê dinheiro”); passamos por muito. Durante nossa viagem Havana foi o lugar em que nos sentimos mais agredidos, e menos bem recebidos.
Isso tudo foi uma grande decepção. Tenho admiração pela história e os feitos de Cuba, e não imaginava que o dinheiro fosse tão relevante para uma sociedade socialista. Gostaria de ter contato com a alegria, a inteligência, a cultura do povo havano. Mas praticamente não tive chance.
No resto do mundo encontrei pessoas interessadas em saber o que eu levava na cabeça e no coração. Aqui, muito infelizmente, o interesse foi sobre o que eu levava no bolso.

Quando me viu com a câmera na mão o senhor da imagem veio correndo e disse: “Me faz um favor? Sou ex-campeão de boxe, e sabe o que me falta? Uma foto!”. Fotografei, é claro. Depois do clique esperava poder escutar uma história inspiradora, de superação e vitória. Tudo que ouvi foi: “agora me dá um peso?”.

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